O cliente deve pagar pela sessão que faltou?

É correto o terapeuta receber pelas sessões onde o paciente não compareceu?

o cliente deve pagar pela sessão que faltou? Como se fosse um valor mensal independente de comparecer às sessões ou não?

Sim. É eticamente e tecnicamente correto.

Toda forma de tratamento ou treinamento contínuo deve ser remunerado independentemente do comparecimento do cliente.

Se você deixa de ir à academia, você, ainda assim, paga à academia?
Se seu filho deixa de ir à escola, você paga à escola?
Se o aluno deixa de ir à escola, o professor deve ser remunerado?

Sim, sim, sim e sim e mais outro sim.

Vou colocar isso de forma bem simples. Existe aqui uma questão prática e outra técnica.

A prática está relacionada ao fato do profissional receber pelo seu trabalho. Mesmo o paciente não indo à sessão, o profissional esteve disponível para ele. O exemplo do professor é bem claro. O professor não recebe mais ou menos por cada aula dependendo da quantidade de alunos que compareceram.

Trata-se, portanto, de reconhecer, valorizar um serviço que está sendo prestado, mesmo sem o paciente comparecer às sessões.

Agora, vamos para a parte técnica.

Mesmo o paciente faltando à sessão, essa sessão ocorreu. É importante entender isso no caso da psicoterapia. Diferente da academia, que você não está malhando quando não vai à sessão, faltas para a terapia podem fazer parte do processo terapêutico. Existe, inclusive, uma recomendação aos psicólogos, psicanalistas, que no tempo que o paciente se ausenta, ele não aproveite para resolver outras questões. Justamente porque por trás de uma falta, existe um sentido que precisa desse tempo construtivo para ser analisado.

Faltas, esquecimentos, desculpas, etc, tudo isso faz parte da terapia e é material importante para mesma. Como já disse em outros textos, o “X da questão” pode estar muito mais na sua falta do que na sua presença.

Quando eu leio essas perguntas iniciais do texto, “o cliente deve pagar pela sessão que faltou?”, eu penso “por que você não está querendo pagar a sua terapia?”. Com certeza existe um sentimento por traz dessa pergunta e ele é importantíssimo para a sua análise. Talvez você não esteja se sentindo acolhida ou nutra sentimentos de raiva em relação ao seu terapeuta, por exemplo. Não tenho como saber, mas é certo que o buraco é mais fundo (sempre é) e, assim, essa questão não é simplesmente prática e financeira.

Recordo o leitor a outro texto que falei sobre a função do dinheiro na terapia:

“Realizar uma psicoterapia é um trabalho difícil. Ela é cheia de obstáculos. Um deles é a resistência dos próprios pacientes, visto que fazer terapia é tocar na ferida. Algo que não se chega pronto para fazer quando se procura a psicoterapia. O mais comum é “eu quero me livrar dos meus sintomas, mas não estou disposto (a) a mudar”. Bom, lamento informar que uma coisa está relacionada a outra. Felizmente temos muitos recursos para lidar com isso. Mas quando os convênios dificultam a terapia, eles fortalecem uma resistência que já estava lá. Pior ainda, um desses recursos que mencionei é o próprio dinheiro. Por exemplo, na clínica escola, onde se realizam atendimentos sociais, é cobrado um valor por sessão de acordo com a renda da pessoa atendida. Seja ele 40 reais, 20 reais, ou 1 real. E esse 1 real pago por sessão é importantíssimo para o andamento da mesma. Existe um valor simbólico no dinheiro que na sessão por convênio é eliminado. Resta somente à relação entre o paciente e o terapeuta a sustentação das sessões”.

Portanto, se o seu terapeuta não cobra as suas faltas, ou ele deveria voltar para a universidade ou, e eu apostaria nessa alternativa, ele precisa falar com o analista dele sobre o porque de ele não conseguir cobrar pelo seu serviço.

Algo está errado.

Gregório De Sordi

Psicólogo, CRP 01/16979, mestre e doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília. Foi professor e coordenador do curso de psicologia da UNICEPLAC. É editor associado da revista "Psicologia: Teoria e Pesquisa" (Qualis A1). Tem experiência profissional na área de saúde mental, psicanálise, psicologia clínica e avaliação psicológica. Atende, com enfoque psicanalítico, adolescentes e adultos em consultório particular localizado em Brasília-DF e atendimentos virtuais. Telefone: (61) 999425123

8 Comentários

  1. Quanto aos exemplos que deu são meio falhos, hoje existem escolas que você pode pagar por aula, geralmente oferecem também o pacote mensal que quase sempre tem desconto, no mensal você pagou o mês se você parar de ir no meio do mês não tem restituição, isso aqui tá certo porque o serviço vai estar a sua disposição pelo tempo que você pagou.
    Porém em casos o serviço é ofertado somente para um prazo maior no caso de instituições de ensino, são assinados contratos geralmente anuais porém nesses contratos são estipulados um valor de “quebra de contrato”, esse valor contratual deve ser calculado levando em consideração: por exemplo o fator substituição, no prazo é possível substituir aquele cliente ? se sim então é considerado que o fornecedor não terá prejuízo significativo então o valor deve restante a ser pago pelo cliente deve ser menor que o valor que ele pagaria se ficasse até o fim, se não é enriquecimento ílicito.
    Ou seja se você vendeu um pacote de sessões e ainda faltam x sessões para o paciente terminar mas ele quer parar, se no tempo que você atenderia o paciente você não deixa em aberto, ou seja, não fica na sua sala olhando para o nada até acabar o tempo, você atende outro paciente nesse tempo então cobrar tudo é enriquecimento ílicito, independente da sua opinião se é justo ou não.

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    • O seu argumento é perfeitamente válido e exprime exatamente a natureza da cobrança, na parte burocrática da questão (sem entrar no âmbito técnico psicoterápico).

      Deve-se levar em consideração que falta, no caso do texto em questão, é o cliente marcar e não comparecer à sessão. O que leva o terapeuta a direcionar seu tempo e atenção à falta, ao cliente. Mesmo quando o paciente falta, o terapeuta não vai ficar “na sua sala olhando para o nada até acabar o tempo”. Afinal, esse tempo seria improdutivo. Tampouco irá atender outra pessoa nesse tempo. O recomendado é dedicar esse tempo à própria reflexão do sentido dessa falta, se atentar aos sentimentos que surgem diante dessa falta, etc. Como disse, o X da questão pode estar mais na falta do que na presença.

      O ideia de enriquecimento ilícito está na noção de que o terapeuta irá receber sem executar o serviço. Importante entender a questão técnica de que o serviço é executado mesmo quando o cliente falta.

      No caso da desmarcação, é recomendado a remarcação para outro horário possível.

      Cobrar a sessão, sem ônus do tempo do terapeuta ou algum ônus financeiro, sem um serviço ser executado, é claro que é enriquecimento ilícito.

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  2. O que sugere juridicamente falando no quesito plano de saúde, onde o plano paga o atendimento do paciente e quando há faltas sem justificativas ou aviso prévio há um prejuízo referente às faltas?

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    • Eu não saberia te dizer juridicamente essa questão. Pode te explicar a minha experiência que tive com convênios. Como disse no post sobre convênios, a conta tem que fechar. Ou ao menos alguém tem que diminuir a dívida dessa conta. Como convênios pagam muito pouco a psicólogo e ainda exigem que eles façam gratuitamente relatórios, não cobrar do plano as faltas (inclusive justificadas) do paciente é completamente sem sentido. Pode ser que ida à clínica não pague a gasolina e um lanche na padaria.

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  3. Ilicito?
    Não é ponto de vista … é uma etica e um lugar cientifico na psicanalise.
    Cobrar as ausências do paciente é corretissimo assim como o Analista repor com Analises que ele não pode estar .
    Isto deve ficar.claro nas entrevistas preliminares.
    Uma especie de contrato verbal cm paciente.
    Não.ha nada de.ilicito no trabalho do Analista ate por que a falta não justificada com antecedencia tem sua função analitica com resistencias analise.
    Paciente agenda confirma e falta…bom analista é atento a esta relacão transferencial.

    Advogados cobram por clientes que entram na sua sala e pedem orientação e é normal … é seu trabalho licito ..
    Sim concordo numero genero e grau ..a conclusão foi otima se o Analista Psicólogo omite cobrar precisa retornar a faculdade ou fazer sessões e entender por que não cobrar pelo seu tempo …

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  4. Juridicamente falando, cobrar 100% Do valor da consulta, causa enriquecimento ilícito!

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    • Oi Iza, interessante seu ponto de vista. Mas não concordo com ele. O enriquecimento ilícito é a transferência de bens, valores ou direitos, de uma pessoa para outra, quando não é caracterizada uma causa jurídica adequada. Exemplo: cobrança de tarifas, por instituição financeira ou por empresa de telefonia, não previstas na legislação ou que não atendam a serviços efetivos. Como mencionei no texto, pagar o psicólogo mesmo nas faltas é uma questão do contrato firmado no início das sessões. Igual pagar academia, escola, etc. Você paga mesmo se não for. Contudo, acredito que a grande confusão que essa questão gera é porque o contrato não está claro para o cliente. Cobrar o cliente sem ele estar ciente e concordando com os dados do acordo é realmente incorreto. Nesse caso, poderia concordar com você.

      Outro ponto importante é também a questão técnica. A falta faz parte do processo terapêutico. Deve ser analisada pelo psicólogo, retomada nas sessões e trabalhada para entender o seu sentido. Nesse campo do psi, um “esquecimento” precisa de aspas. Por que é que você esqueceu da sessão? Quais emoções e sentimentos estão por trás disso?

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  5. É justo parcialmente para o psicólogo cobrar a consulta que o paciente faltou, porque o psicólogo fica livre para sentar e ler um livro enquanto espera. Portanto, pode ser uma boa opção para o cliente pagar metade do valor quando faltar, mas é ruim para o Psicólogo que perde dinheiro, mas é justo

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